quinta-feira, 20 de maio de 2010

Comunidades são Comum Unidades?

Numa época que tanto se fala de redes sociais pra ali, comunidades pra lá, seguidores pra cá, venho nesse post questionar se o conceito de comunidade está sendo aplicado corretamente. Segue a história:

Um belo dia, num formigueiro, a Rainha convocou todas as formigas e separou-as em grupos. Cada grupo seria responsável por uma coisa. Para cada grupo a Rainha escolheu uma formiga experiente para coordenar. E enviou-os para que fossem executar suas atividades.

Num certo grupo (o responsável pela coleta de comida), o coordenador fez uma mini-reunião para decidir como eles iriam dividir suas tarefas para alcançar o objetivo do seu grupo. Mas durante a reunião, saiu a seguinte conversa:

- Pessoal temos que colher bastante comida para o jantar anual. Estão todas prontas para usar suas mandíbulas e seus feromônios?
- Eu não sei fazer isso, não.
- Eu tô enferrujada.
- Eu ainda sou muito nova para isso.
- Eu não tenho experiência.
- Eu também nunca fiz isso.
- Agora eu não posso, pois estou ocupada com outras coisas.

Dessa forma, a formiga coordenadora se sentiu insegura de contar com a ajuda das outras. Atribuiu-lhes, então, atividades mais fáceis ou de quase nenhum valor para serem cumpridas. Saiu, por fim, sozinha para atingir a meta estipulada pela Rainha.

Algumas formigas ficavam esperando nas portas do formigueiro a coordenadora chegar carregada de comida para a grande festa. A coordenadora estava sobrecarregada e cansada e já não conseguia dar conta de toda a comida que o grupo dela deveria levar. E anunciou sua decisão para o grupo:

- Vamos trabalhar também à noite para podermos alcançar a meta que nós temos que atingir.

E assim se fez. Trabalharam horas extras todas do grupo. É verdade que algumas do grupo iam para a porta do formigueiro com vontade de ajudar a coordenadora. Entretanto, outras achavam ruim ter que trabalhar à noite também. E reclamavam:

- Eu estou cansada de passar o dia inteiro aqui e ainda ter que vir pela noite.
- Pois é! Estamos trabalhando demais e ficando cada vez mais cansadas.
- Não sei por que a coordenadora inventou de trabalhar até essas horas!
- Por acaso ela não se programa para trabalhar nas horas normais?

Até que uma das formigas de boa vontade disse:

- Não seria melhor se a gente ajudasse de forma mais comprometida a coordenadora?
- Comprometida?
- Sim! Engajada! Participante! Atuante! Mão na massa! Ao invés de ficarmos esperando ela por tudo.
- Boa idéia! A partir de amanhã, nós iremos nos juntar a ela e assim traremos a comida necessária mais rápido e teremos tempo para descansar à noite.
- Todas topam?
- Sim! - Responderam em uníssono.

No dia seguinte, só uma delas acompanhou a coordenadora nos trabalhos braçais. As outras ficaram na porta do formigueiro alegando as mesmas desculpas do começo da história.

No caminho, a coordenadora desabafou com a companheira:

- Não dá pra fazer tudo isso sozinha! Sou só uma formiga.
- Entendo. Mas por que você faz?
- Porque precisa ser feito e não me sinto confortável em pedir coisas às outras, pois acredito que não vão conseguir.
- Entendo. Eu acho que até elas não acreditam que vão conseguir.
- A Rainha me chamou pra conversar e me disse que meus amigos e familiares estão reclamando minha ausência. Quando expliquei pra ela os motivos do meu chá de sumiço, ela não gostou. Ela disse que não queria eu fazendo tudo sozinha, e que eu tinha um time pra ajudar e colaborar, e que amigos e família são extremamente importantes na vida de uma formiga. Mas temos que atingir a meta, não é?
- Você acha que vamos atingir a meta?
- Acho que sim. Com muito esforço e trabalho vamos conseguir. Acredito que no final ela me dará uma coroa de honra ao mérito.
- Mesmo você deixando seus amigos e parentes de lado?
- Sim.
- Mas você não acha que se fosse pra deixar amigos e parentes de lado, a Rainha não teria dito? Acredito que ela quer a harmonia dentro do formigueiro.
- É. Ela falou que eu saberia o momento de deixar amigos e parentes de lado. Mas... Enfim... Agora apresse-se, pois falta pouco para alcançarmos a meta.

Dias depois, a Rainha foi fazer o levantamento das atividades executadas pelos grupos e viu que aquele grupo tinha conseguido atingir a meta. E, voltando-se para o grupo, disse:

- Vejo que sua coordenadora não está com vocês.
- É verdade. Ela está doente. Ultrapassou os limites dela…
- Sem meu consentimento. - Completou a Rainha.
- Por isso não vem hoje receber o prêmio.
- Ela não merece o prêmio. Se sua coordenadora não merece, vocês também não merecem. E vocês sabem o porquê.

Entristecidas, as formiguinhas baixaram as cabeças em sinal de arrependimento. E a Rainha continuou:

- Agora o mínimo que vocês podem fazer é voltar lá e tomar conta da sua coordenadora, a fim de que reestabeleça sua saúde o mais breve possível.
- Servir a coordenadora?
- Isso mesmo. Espero que tenham entendido o recado.

E retirou-se.


PERGUNTO: Onde ficou a Comum Unidade (ou Comunidade)?

1. Dentro do formigueiro?
2. Na porta do formigueiro?
3. Fora do formigueiro?
4. Ou em canto nenhum?

[]'s

Um comentário:

T.Duch disse...

Olha, a formiga coordenadora não soube fazer o trabalho. Coordenador não é sinônimo de maior trabalho, mas sim de liderança no grupo.
O medo, a falta de treino, a inceteza e a inexperiência faz comm que muitos de nós não ultrapassemos nossas barreiras. Mostrar que isso é possível é tarefa da coordenadora.
Ora, se a chefe "perdesse" algumas horas a ensinar as putras formigas, não teria acontecido isso.
O alto respeito humano e o medo de quebrar o paradgma dominante faz com que cada vez menos tenhamos abertura pra chegar no outro para trocar experiências e forma-lo se preciso, pois o lema da tualidade é "cada um cuida do que é seu".
Abração Mérsão