quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Ser índio ou não ser?

Um certo dia, assistindo a um programa de TV, deparei-me com uma realidade que me fez pensar sobre a minha e a de muitos: a realidade de uma tribo de índios chamada Fica-Fica. O programa mostrava o dia-a-dia dessa tribo, como viviam, como se alimentavam, suas crenças, seus relacionamentos, ...

O ator principal era uma criança da tribo. Um indiozinho. E a história se passava junto com o seu tio, o qual estava responsável pela educação do menino (uma vez que os pais dele haviam abandonado a tribo). O menino já chegou na idade de aprender a sobreviver, de aprender a se virar.

O Sol se levanta, e o menino junto com o tio também. Ambos caminham mata adentro na direção do "Templo" para rezar. O tio ensina ao menino que antes de caça, ele deve pedir bençãos e proteção aos deuses. Lá eles fazem suas orações e partem para as surpresas daquele dia.

Antes de comecar em si a pesca, o tio ensina ao menino como fazer uma PIPA. Isso mesmo!!! Uma PIPA. Essa tribo usa a pipa para ajudar na pescaria. Ela serve como sinalizador para o pescador indicando que o peixe mordeu a isca. Ele ensina como escolher todo o material. Em seguida ensina a fazer uma isca. E em todos os momentos o menino imita e tenta seguir o tio. Lógico que não tem a mesma prática do tio, logo executa algumas tarefas com dificuldade e limitação.

Após a construção da pipa e da isca, eles entram na canoa e seguem para o rio. Lá, o tio ensina ao menino como pescar usando a pipa e a isca. Digamos que o tio "dá o peixe e ensina a pescar", porque mostra a primeira vez como fazer e em seguida entrega tudo nas mãos do menino. O menino erra muito, mas enfim consegue realizar sua primeira pesca. A partir desse momento ele vai melhorando sua nova habilidade. Continua a errar, mas cada vez mais vai diminuindo a quantidade de erros.

Por fim, dias depois o tio deixa de acompanhar o menino, pois sabe que esta na hora do menino crescer sozinho, de dar seus próprios passos, de vencer os desafios da vida; mesmo sabendo que o menino corre o risco de morrer caso não supere as adversidades da vida. Ele não terá seu tio o tempo todo por perto, e o tio sabe disso.

Sendo assim, o menino volta com sua pipa para o rio e vai treinar novamente tudo aquilo que seu tio lhe ensinou, vai buscar a maturidade e o sustento com as próprias mãos (pois seu alimento virá dali), vai se tornar mais um adulto da tribo; e se juntar a todos os outros índios no rio.

Diante desse exemplo de vida, parei pra pensar: Quantas vezes nos fazemos meninos(as) querendo aprender, querendo conhecer, querendo melhorar com a experiência de outra pessoa? Quantas vezes antes de sair de casa ou logo que acordamos pedimos bençãos e proteção a Deus para aquele dia, para termos força e coragem de encarar as surpresas e o novo daquele dia? Quantas vezes ouvimos e seguimos conselhos dos mais velhos e experientes (muitas vezes nossos parentes: pais, avós, tios) a fim de não "reinventar a roda" da sabedoria e da experiência e com isso evitarmos alguns sofrimentos, ou ainda melhorarmos o conhecimento que já existe? Quantas vezes insistimos contra as portas que nos são fechadas até conseguirmos abri-las e podermos nos enveredar por novos caminhos salutares? Quantas vezes nos atiramos com confiança (de estar nas mãos de Deus) para o novo que vem até nós? Quantas vezes queremos (e fazemos questão de) crescer como pessoa?

Há quem diga que o homem branco e mais desenvolvido do que o índio. Eu tenho minhas duvidas. Pois respondendo as perguntas acima, e fácil ver que em muitas respostas nós regredimos... Em muitas respostas, o medo seria muito bem colocado como motivo desse retrocesso dos cara-pálida.

O que será que é melhor? Ser índio ou não ser?

Um comentário:

Léia disse...

Ser criança sempre. Vale mais que ser índio ou ser um "cara pálida".
E ser criança, aqui em meu loiro pensamento, é encantar-se com as pequenas, porém fantásticas, surpresas da vida. Respirar é uma surpresa. Acordar. Viver. Sentir. Permitir-se. Ser você. Ser eu. Encontrar um "nós". Respeitar "eles". Pronto, meu conhecimento gramatical me limita. :) Bom saber que vc escreve. Beijo bom!